Mortes em protestos no Irã chegam a quase 200 e crise interna amplia tensão com EUA e Israel
Por Dircélio Timóteo
A onda de protestos que se espalha pelo Irã há quase duas semanas já deixou ao menos 192 mortos, segundo dados divulgados neste domingo (11) pela organização Iran Human Rights, com sede na Noruega. A entidade alerta que o número real de vítimas pode ser ainda maior, já que bloqueios prolongados na internet dificultam a checagem independente das informações.
As manifestações, que ganharam força no fim de 2025, têm sido marcadas por confrontos cada vez mais intensos entre forças de segurança e manifestantes. A polícia iraniana reconheceu o agravamento da situação, enquanto o governo reforça o discurso de que a estabilidade do país está ameaçada.
Em pronunciamento oficial, o presidente Masoud Pezeshkian pediu que a população se afaste do que classificou como “grupos terroristas e baderneiros” e afirmou que o governo está disposto a ouvir reivindicações populares, especialmente ligadas à crise econômica. Ao mesmo tempo, acusou Estados Unidos e Israel de fomentarem o caos interno, ampliando o tom de confronto diplomático.
A Guarda Revolucionária, um dos pilares do regime e responsável por defender o sistema político liderado pelo aiatolá Ali Khamenei, declarou que a preservação da segurança nacional é inegociável. Já o líder supremo foi ainda mais duro: em discurso transmitido pela TV estatal, Khamenei afirmou que o governo “não vai recuar” e classificou os manifestantes como “vândalos” e “sabotadores”.
O cenário interno se mistura a uma escalada de tensão internacional. O governo iraniano ameaçou retaliar Israel e bases militares dos Estados Unidos no Oriente Médio caso seja alvo de um ataque norte-americano. A declaração veio após o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmar que poderia intervir se o regime iraniano continuar reprimindo protestos pacíficos. No sábado (10), Trump voltou a se manifestar, dizendo que o Irã “busca liberdade” e que os Estados Unidos estariam “prontos para ajudar”.
Veículos da imprensa norte-americana apontam que a Casa Branca avalia diferentes opções. O The New York Times informou que Trump foi apresentado a cenários que incluem ações militares, enquanto o Axios destacou a possibilidade de apoio direto aos manifestantes. O governo iraniano, por sua vez, afirma que parte da instabilidade é resultado de articulações externas — acusações rejeitadas por Washington, que as classificou como uma tentativa de desviar o foco dos problemas internos do país.
Analistas observam que o Irã enfrenta um dos momentos mais delicados dos últimos anos. Além de não registrar protestos dessa dimensão desde 2022, quando a morte de Mahsa Amini provocou mobilizações em todo o país, Teerã lida com os impactos recentes do conflito com Israel, o enfraquecimento de aliados regionais e a retomada de sanções da ONU relacionadas ao programa nuclear.
Enquanto o número de mortos cresce e o diálogo segue incerto, a crise expõe não apenas o descontentamento popular, mas também a fragilidade política e diplomática de um regime pressionado simultaneamente dentro e fora de suas fronteiras.